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Resenha - Introdução à Psicoterapia Tomista - Rafael de Abreu

“Introdução à Psicoterapia Tomista” é o título do livro do professor Rafael de Abreu, publicado em 2023 pela editora Domine, em Osasco, São Paulo.

 

Santo Tomás de Aquino, até onde se sabe, não escreveu um livro ou tratado de Psicoterapia propriamente dito; a figura do psicoterapeuta e sua atividade, tais como se admite hoje, só foram convenientemente estabelecidas no século XX, sete séculos depois da época em que viveu o Aquinate.

 

Entretanto, a Psicoterapia é apenas uma atividade que aplica na vida de um indivíduo os princípios de uma ciência que é anterior a esta profissão: a Psicologia.

 

E a Psicologia, ao menos etimologicamente, se propõe a ser uma ciência da alma; sendo que na alma é onde se encontram as duas faculdades superiores que distinguem os seres humanos do demais animais, a saber: a inteligência (razão, ratio) e a vontade (voluntas).

 

Aquino, muito além de um comentador de Aristóteles, sintetizou o conhecimento do estagirita e o integrou ao conhecimento do século XIII.

 

Em vista da precisão conceitual e do realismo de uma filosofia perene como o tomismo, aliado ao desejo de uma psicoterapia que reconhecesse a existência da alma e colocasse a inteligência humana no centro da personalidade, surgiram tentativas de aplicar os princípios ensinados por Santo Tomás de Aquino na prática da Psicologia atual.

 

Assim, por volta de 1940, nasce a Psicoterapia Tomista, que é pesquisada e desenvolvida até os dias atuais, e que tem ganhado cada vez mais espaço no debate e gerado frutos, dos quais o livro apresentado nesta resenha é um exemplo.



1. Uma breve apresentação da obra e do autor


Como consta na apresentação da obra, este livro é resultado de uma insatisfação do autor para com os ensinamentos ministrados durante a sua graduação em Psicologia, que não oferecia suficientes respostas para questões centrais como a natureza da alma humana e suas operações próprias.

 

Procurando uma alternativa segura, o professor Rafael de Abreu ouviu sobre uma Psicologia iluminada pelos princípios tomistas.

 

Então, pôs-se à procura do professor Sidney Silveira, estudioso e propagador do tomismo no Brasil, o qual lhe apresentou em linhas gerais a antropologia filosófica que embasa a aplicação do tomismo à Psicologia, bem como os princípios metafísicos que permitem a análise profunda da relação entre alma e corpo no ser humano.

 

Terminada a graduação, Abreu aprofundou seus estudos com o célebre tomista argentino Martín Echavarría, decano da Faculdade de Psicologia Abat Oliba de Barcelona e referência na área em questão.

 

Com o tempo, o professor Rafael consolidou seu conhecimento e prática na área psicológica e iniciou o colossal trabalho de promover a Psicologia Tomista no Brasil.

 

Tudo isso levou, dentre outras coisas, à necessidade de escrever uma obra que servisse de material introdutório para os psicólogos e demais interessados que ainda não tinham contato com a Psicologia Tomista.



2. Resumindo a obra


O livro é dividido em 10 capítulos, os quais poderiam ser agrupados pedagogicamente em duas seções: do primeiro ao quinto capítulo, o autor apresenta cinco objetivos que norteiam a atividade do psicoterapeuta tomista; do sexto ao décimo capítulo, expõe complementos que considera importantes para a prática psicoterapêutica.

 

Nas fotos abaixo, encontra-se o sumário da edição utilizada nesta resenha.



No primeiro capítulo, Rafael de Abreu apresenta o primeiro objetivo da psicoterapia tomista: psicorreducação.

 

A ideia é que o profissional ajude o paciente a olhar o passado e, identificando e entendendo seus problemas reais por meio de uma boa definição dos termos, assumir a responsabilidade pela sua própria vida, pondo-se em movimento para ordenar sua relação com a realidade objetiva.

 

No segundo capítulo, o objetivo apresentado é encontrar e ordenar as paixões desordenadas. Na Antropologia Tomista, entende-se que o ser humano possui uma tendência natural ao bem e uma rejeição ao mal, mas esta tendência torna-se embotada quando sobreposta por paixões desordenadas que interferem no discernimento entre bem e mal e levam a péssimas escolhas.

 

O paciente precisa identificar suas paixões e ordená-las, passando a se guiar não pelas suas emoções, mas pela regra racional, que é impulsionada pelo amor (amor não apenas passional, e sim em seu sentido mais elevado: decisão racional pelo bem).

 

No terceiro capítulo, posiciona-se a inteligência no centro da personalidade, isto é, a inteligência é posta no controle de tudo.

 

A Psicologia Tomista não ignora a subjetividade humana, mas entende que esta não pode ter demasiada ênfase; a inteligência, conhecedora do bem e do mal, é que deve comunicar à vontade o que deve ser feito, assim como ordenar as paixões para impulsionarem o cumprimento do planejado. E isto implica, dentre outros elementos, a recuperação do realismo e do senso do dever.

 

No quarto capítulo, promove-se o saber lidar com a felicidade e com as dores.

 

Após uma reflexão e distinção entre Felicidade Perfeita e Felicidade Imperfeita — que só a Filosofia Tomista poderia oferecer com tanta precisão conceitual — entende-se que, nesta vida, sempre haverá algo de sofrido. E esta certeza leva a encarar os problemas como se deve: é preciso identificar as dores, hierarquizá-las, e suportá-las ou (re)significá-las de acordo com sua natureza.

 

No quinto capítulo, fala-se sobre o último dos 5 objetivos: o desenvolvimento das virtudes. A Psicoterapia Tomista objetiva melhorar a pessoa humana, e as virtudes são bons hábitos operativos que combatem os vícios e capacitam para o bem.

 

Com um bom resumo a respeito das virtudes cardeais (prudência, justiça, temperança e fortaleza), Abreu apresenta o modo clássico de se aperfeiçoar enquanto pessoa e se tornar apto a fazer escolhas melhores no dia a dia, levando ao bem pessoal e comunitário.

 

O sexto capítulo, recordo, inaugura o que seria a segunda seção da obra, e seu título é os vícios capitais e os pacientes.

 

Os vícios capitais são hábitos operativos ruins que corrompem a vontade, fazendo com que a pessoa tenda para o mal. Porque a Psicoterapia Tomista visa a superação do vício e cultivo das virtudes, Abreu apresenta cada um desses inimigos internos a serem combatidos, o veneno que representam para a alma, bem como os remédios conhecidos para tais males.

 

No sétimo capítulo, expõe-se a postura do psicoterapeuta para a Psicoterapia Tomista.

 

Aqui se demonstra a necessidade de que o psicoterapeuta também procure se aperfeiçoar como pessoa, a fim de que, sendo saudável, seja capaz de tornar a outros saudáveis pelo ensino, correção, aconselhamento e consolo.

 

O oitavo capítulo traça características presentes no paciente que está apto à desejada alta na Psicoterapia Tomista. E a alta se consolida à medida em que o paciente demonstra amor (racional, não somente sentimental) pelos bons hábitos e realiza livre e estavelmente atos de virtude em sua vida cotidiana.

 

O nono capítulo traça a relação entre o Psicoterapeuta e a Graça.

 

A Filosofia Tomista é aberta ao transcendente e à cooperação com a Teologia. E aqui se explica o fato de que o recurso à Graça Divina não tolhe e nem limita a natureza e a atividade humana, mas aperfeiçoa e eleva ao seu estado mais adequado.

 

Enfim, o décimo capítulo faz um aberto convite à Psicoterapia Tomista, o que, no fundo, é um convite ao aprofundamento dos temas tratados de maneira introdutória na obra, e que requerem interesse na investigação para serem entendidos e aplicados corretamente, bem como um convite ao empreendimento de ajudar as pessoas a se tornarem o que nasceram para ser: boas pessoas.



3. Considerações sobre a obra


Introdução à Psicoterapia Tomista cumpre o que promete ser: um livro introdutório à Psicologia orientada pelos princípios da Filosofia Tomista.

 

Sua arquitetura é bem pensada tanto na organização dos capítulos como na estrutura interna de cada um, e o autor tem o excelente mérito de explicar os conceitos com ordem, clareza e simplicidade nas palavras, um combo de qualidades raro de encontrar.

 

Menção honrosa se deve ao fato de que o professor enriqueceu o texto com exemplos concretos e práticos, além de gráficos e figuras que auxiliam a ter uma visão geral e sistemática do tema abordado.

 

O único ponto negativo a ser citado é que, em determinadas passagens, há excessiva preocupação em explicar detalhadamente um conceito, tornando o texto repetitivo; mas isso só parece ser um problema para quem já está habituado com leituras de textos filosóficos densos. O leitor iniciante não sentirá tal peso.

 

Sendo uma introdução, o livro não se detém em questões complexas e elevadas filosoficamente e a leitura, sempre agradável, não requer uma prévia bagagem de conhecimento filosófico para um bom entendimento.

 

Ainda assim, a obra não se permite ser superficial a ponto de nada interessante ser captado por quem já conhece algo da Filosofia, e aqueles já familiarizados com os conceitos tomistas encontrarão diversas aberturas para reflexões ainda mais sérias.

 

Recomendo esta obra principalmente aos estudantes de Psicologia, que querem uma alternativa segura e de matriz realista para seus estudos, e aos psicólogos já atuantes que, percebendo as lacunas e o vazio criados em seus pacientes por teorias incompletas ou reducionistas, desejam melhorar sua prática clínica e verdadeiramente ajudar as pessoas a se tornarem melhores.

 

Ademais, aqueles que não estão inseridos no estudo/prática da Psicologia também encontrarão algo nesse precioso livro: um itinerário do que precisa ser feito para alcançar o melhor de si.



 

Bibliografia


ABREU, Rafael de. Introdução à psicoterapia tomista. Osasco, SP: Domine, 2023.


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